Ponte sobre o Rio Cana Brava será inaugurada, e Prefeitura homenageia um dos grandes pioneiros de Minaçu

A Prefeitura de Minaçu inaugura neste sábado, 15 de novembro, às 11h, a nova Ponte Abraão Pereira de Aguiar, construída sobre o Rio Cana Brava, na região da Passarela. Mais do que uma nova estrutura de mobilidade rural, a obra representa um gesto histórico de reconhecimento a um dos homens que ajudaram a moldar o território, a economia e a identidade rural do município: Abraão Pereira de Aguiar, pioneiro cuja trajetória permanece na memória de gerações e quem vamos conhecer em mais uma série histórica do Portal NG:

Nascido em 22 de novembro de 1923, no então município goiano de Pedro Afonso, hoje Tocantins, Abraão casou-se aos 24 anos com Corina Gomes de Aguiar, com quem construiu uma família marcada pelo trabalho, coragem e senso de comunidade. Em 7 de julho de 1957, após uma viagem de 18 dias em um comboio de cargueiros, chegou à região que futuramente se tornaria Minaçu. O local era isolado, sem estrada, sem escola e sem estrutura, mas Abraão enxergou ali um futuro possível — e o construiu com as próprias mãos.

Movido pelo sonho de se dedicar à pecuária, tornou-se rapidamente uma liderança . Era admirado pela força física, pela disposição incansável, pela inteligência para a época e pelo espírito solidário que lhe renderam respeito em toda a região. “Ele era pequeno no tamanho, mas enorme na coragem”

Em depoimento emocionado, Sebastião Gomes de Aguiar, um dos filhos, relembra o pai:“ Com o crescimento da família, surgiu a necessidade de garantir educação para os filhos — um dos maiores sonhos do casal. Porém, a região não oferecia condições mínimas para isso. Foi então que ele procurou o deputado estadual José Porfírio de Sousa, eleito por Goiás e o primeiro camponês a ocupar o cargo, que alcançou expressiva votação. Como eram amigos e conterrâneos de Pedro Afonso, Porfírio criou uma escola estadual na zona rural, instalada dentro de uma fazenda — algo inédito em Goiás”. Hoje, a Escola Estadual Santo Antônio de Cana Brava.

Abraão, de acordo com Aguiar, não se limitou à pecuária. Movido por sua preocupação com o futuro dos filhos e da comunidade, buscou ajuda do deputado estadual José Porfírio de Sousa, que conseguiu instalar uma escola estadual dentro da zona rural, um feito inédito em Goiás na época.

Na área da saúde, atuou também como agente comunitário antes mesmo do termo existir, levando moradores para Goiânia, onde tinha contato com o renomado Dr. Anwar Awad, um dos maiores dermatologistas do mundo, fundador do antigo Hospital do Benéfico — hoje o HDT, em Goiânia — e pai do narrador esportivo Téo José.

 

A dor da perda e a história interrompida

A morte da esposa, Corina, em 1965, abalou profundamente a família. Abraão permaneceu viúvo por nove anos e mais tarde se casou novamente, dessa vez com Judite, com quem teve sua filha caçula, Iraci. Mas o destino foi duro: Abraão faleceu aos 49 anos, em um acidente automobilístico enquanto retornava de uma viagem. Iraci nasceu após a morte do pai e nunca chegou a conhecê-lo.

Mesmo com a partida precoce, a força de sua trajetória ecoou pela região. Como resume Sebastião: “Quando ele chegava para comprar gado, o chão tremia. O nome dele tinha peso.”

 

A homenagem que a história devia

Entre os filhos, Antônio Gomes de Aguiar, conhecido em Minaçu como Tonhão do Sindicato, disse ao Portal NG, da emoção e senso de justiça histórica. Em sua fala, Tonhão destaca o papel do pai na construção e no fortalecimento da região rural de Minaçu:

“Meu pai foi um verdadeiro desbravador. Ele chegou aqui quando não havia nada, e sempre agiu para melhorar a vida de todos. Muitas vezes lamentei que seu nome ficasse apenas na memória de quem o conheceu, apesar de tudo o que ele fez. Ver essa homenagem agora é saber que a história dele finalmente ganhou o reconhecimento que sempre mereceu.”

“Ele tinha atitudes de buscar melhorias, de trazer uma escola para a região, de organizar eleição no Filó, de ajudar as pessoas que adoeciam, buscando remédios e levando pessoas para fazer tratamento em Goiânia. No fundo, eu lamentava que o nome dele não fosse lembrado pelas autoridades, pelo poder público e pela população em geral, porque quem o conheceu sabe da importância que ele teve no tempo dele.”

“Ele era um homem companheiro, que trouxe todos os irmãos para morar aqui. Ele veio primeiro e, depois disso, trouxe os cinco irmãos dele; só uma não veio porque já havia falecido, e outra ficou em Ponte Alta.Então, essa homenagem ao meu pai foi uma atitude muito sensata e muito feliz dos vereadores, do prefeito e do vice-prefeito. É uma homenagem justa a um pioneiro — e tantos outros também merecem, mas nem isso estava acontecendo. Os pioneiros estavam ficando para trás., disse”

Genésio Aguiar, o filho primogênito, relembra que seu pai, Abraão, era um homem conhecido por ajudar as pessoas em uma época em que viajar para Goiânia era extremamente difícil. Por causa do medo e da falta de conhecimento, quase ninguém ia sozinho, e seu pai sempre acompanhava quem precisava de tratamento médico, especialmente durante a epidemia de “pé seco”, quando muitas pessoas doentes eram levadas para o Hospital do Benéfico (hoje HDT). A própria casa da família virou quase uma enfermaria, onde doentes eram acolhidos e medicados. Ele destaca também que a primeira escola estadual de Minaçu só foi instalada na região graças ao esforço do pai, que lutou pela sua implantação.

Genésio conta que Abraão também organizou a chegada da primeira urna eleitoral de Minaçu, a 19ª, que veio a cavalo de Formoso. Ele ficou responsável por registrar 160 eleitores, distribuir os títulos enviados pelo cartório de Arraias e até ensinar moradores a assinar o nome com a ajuda da Tia Manoela. Para Genésio, “todas essas ações explicam naturalmente a homenagem agora prestada ao pai, que deixou um legado marcante na região. Ele afirma que essa homenagem não é apenas justa, mas motivo de grande alegria para toda a família”.

 

O legado dos Aguiar

Do primeiro casamento com Corina, Abraão teve 9 filhos: Adélia, Amélia, Antônio (Tonhão), Corina, Elena, Genésio, Isabel, Maria e Sebastião.
Do segundo casamento, com Judite, nasceu Iraci, a caçula — que, mesmo sem conhecer o pai, cresceu cercada das histórias de sua grandeza. Ao todo, são 10 irmãos, e, dessa prole, 25 netos, 26 bisnetos e uma tetraneta.

Uma das filhas Isabel Gomes de Aguiar, o pai, foi um grande homem, honrado e querido por todos que o conheceram. Foi polivalente e desenvolvia várias funções na sociedade ao mesmo tempo. Um líder nato: juiz de paz, político, assistente social, parceiro, mulandeiro, tropeiro e nosso alfabetizador. Ao meu ver, um grande sábio e visionário. Desbravador e destemido. Não mandava recado: falava na lata, se preciso fosse. Muitos o tinham como severo; eu, como filha, o tinha como meu refúgio, meu porto seguro e meu aconchego.

“Muito sociável, solidário e humano. Não admitia injustiça com os menos favorecidos. Transformava nossa humilde residência em centro de apoio para aqueles que ele, por conta própria, levava para tratamento em Goiânia — e só liberava para ir para casa quando estivessem totalmente curados. Contribuía com pesquisas sobre mosquitos transmissores de uma doença na época; nos colocava para pegar mosquitos borrachudos para que um médico amigo, em Goiânia, pudesse fazer testes”

E completou: “Minha vida é pautada em seus ensinamentos, desde as coisas mais insignificantes até as mais significativas, como nunca mentir nem ser trapaceiro. Acho que todos os dez irmãos levam consigo muito de seu legado. Ficamos desfavorecidos sem ele, não desonrados.”

 

Uma ponte que liga o passado ao futuro

Para as autoridades municipais, dar o nome de Abraão à ponte não é apenas um gesto simbólico, mas um ato de justiça.

O presidente do Sindicato Rural de Minaçu e vereador, Bruno Queiroz, reforçou: “Além de ser um momento de grande importância para a comunidade, é uma justa homenagem. E que é uma chance da história do seu Abraão, se perpetuar por longos anos”

Assim, a nova ponte sobre o Rio Cana Brava não é apenas uma travessia: é a ligação entre o passado e o futuro; entre a memória e o reconhecimento. E a festa será do tamanho da homenagem (confira no card acima).

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