Ana Paula leva Minaçu à final do maior reality de merendeiras escolares do Brasil; nutricionista conta trajetória e bastidores da Band

Mesmo antes do anúncio do resultado final do reality show Escola de Sabores, da Rede Band, que acontece agora, as 12h, Ana Paula já é tratada como vencedora por quem acompanhou sua caminhada até aqui. Quilombola, merendeira escolar e representante de Minaçu (GO), ela carrega uma história marcada por superação, sensibilidade social e pelo entendimento da comida como instrumento de cuidado, acolhimento e dignidade.

A final está sendo transmita pela rede intergrada da Band e suas afiliadas e ao vivo pelo site: https://www.band.com.br/ao-vivo

Ao lado da nutricionista Fernanda Marques Mendes, que a acompanhou durante toda a competição, Ana Paula chegou à final do programa como uma das três representantes de grupos tradicionais do Brasil: indígenas, ribeirinhos e quilombolas. A final reúne ainda participantes do Amazonas e do Acre, regiões de difícil acesso, o que amplia o simbolismo da disputa e reforça o alcance nacional do projeto.

“Independente de primeiro, segundo ou terceiro lugar, ela já é campeã. Entre 15 participantes, entre cinco quilombolas, ela já venceu. Só de estar ali, ela já venceu”, afirma Fernanda.

Da merenda escolar de Minaçu ao palco nacional

A trajetória de Ana Paula começa muito antes das cozinhas cenográficas e dos holofotes da televisão. Ainda aos 12 anos, saiu de um povoado rural para estudar na cidade, passando a morar na casa de terceiros, onde assumiu tarefas domésticas e cuidados com crianças, muitas vezes sem sequer ter acesso à mesma alimentação da família. Apesar das dificuldades, nunca transformou o sofrimento em ressentimento.

Segundo Fernanda, essa vivência moldou a relação de Ana Paula com a comida e com o cuidado social. “Ela não é uma pessoa que reclama. Ela só sabe agradecer. Mesmo tendo uma história sofrida, ela não transparece isso”, relata. Na escola, a merenda passou a representar mais do que um lanche: era o momento em que Ana Paula se sentia criança, acolhida e segura.

O papel da nutricionista e os bastidores da seleção

Fernanda atua na merenda escolar de Minaçu desde 2017 e é responsável pela elaboração dos cardápios e pela logística de distribuição dos alimentos em unidades urbanas e rurais do município. Foi ela quem recebeu o primeiro contato informando que escolas quilombolas do Centro-Oeste poderiam ser selecionadas para o programa.

“No começo, tudo era muito vago. A gente até achou que fosse golpe”, relembra. A confirmação só veio quando as passagens aéreas chegaram. “Foi só com a passagem na mão que a gente acreditou que era real.”

Entre 27 municípios com escolas quilombolas no Centro-Oeste, apenas dois foram selecionados. Minaçu estava entre eles. A partir daí, Fernanda e Ana Paula embarcaram para São Paulo sem sequer saber a data de retorno, já que a permanência dependia das fases eliminatórias do reality.

Cozinha como identidade, memória e afeto

Durante as provas, Ana Paula apresentou pratos que dialogavam diretamente com a cultura quilombola, com a agricultura familiar e com a realidade da merenda escolar. Um dos destaques foi o prato “Segredos da Terra”, um escondidinho de abóbora que venceu a disputa entre as participantes quilombolas.

A escolha dos nomes foi pensada estrategicamente. “A gente discutia tudo à noite. O prato precisava contar uma história, não era só ser bonito”, explica Fernanda. Outro momento marcante foi a prova de sobremesa sem açúcar. Sem o ingrediente disponível, a solução foi usar banana e coco para adoçar naturalmente. “Ela achou que não ia dar certo, mas deu. E os jurados gostaram.”

Merenda escolar como política pública

A experiência no programa também evidenciou a importância da merenda escolar como política pública estruturante. Fernanda destaca que muitas crianças do município têm na escola a principal — e, em alguns casos, única — refeição do dia.

“Por isso a gente sempre pensa em um lanche mais reforçado. Tem criança que come na escola e não almoça nem janta em casa”, explica. No programa, nutricionistas de outros países demonstraram interesse no modelo brasileiro de alimentação escolar, considerado referência internacional.

A final e o sentimento de missão cumprida

A final do Escola de Sabores reúne três representantes: Ana Paula, como quilombola; Alisson, indígena do Amazonas; e Antônia, ribeirinha do Acre. Para Fernanda, o resultado final é importante, mas não define o impacto da trajetória.

“Existe uma pressão para ficar em primeiro lugar, mas eu sempre falo para ela: vocês já são vencedores. Olha quantas merendeiras existem no Brasil. Estar ali já é um troféu”, afirma.

Independentemente da colocação, Ana Paula retorna a Minaçu como símbolo de representatividade, orgulho coletivo e valorização da merenda escolar como espaço de transformação social.

Pingue-pongue com Fernanda

Primeira sensação ao entrar no estúdio da Band?
Parecia um sonho. Tudo muito organizado, cronometrado, grandioso.

Quem ficou mais nervosa durante as provas?
Eu. Muito mais do que ela.

Teve algum desentendimento entre vocês?
Nenhum. A gente sempre concordou em tudo.

Prato mais emocionante da competição?
Segredos da Terra.

Valeu a pena?
Valeu cada segundo.