Hoje, Terras Raras ainda rendem pouco; mas Minaçu pode se tornar uma das cidades mais ricas da mineração no Brasil até 2030
A venda da mineradora Serra Verde, em Minaçu, para a americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões representa apenas o começo de uma escalada de crescimento regional, sobretudo para Minaçu. No entanto, a operação tem potencial para transformar profundamente a economia local nos próximos anos, reposicionando a cidade como um dos principais polos da mineração brasileira, ou, talvez liderando uma lista de maiores centros mineradores para tecnologia de ponta do País, o que vai exigir investimentos em infrestrura regional.
Atualmente, a arrecadação de Minaçu com a atividade mineral ainda é limitada. A cidade está longe de depender dos royatyes da mineração. Isso ocorre porque a produção comercial da mina Pela Ema teve início apenas em 2024 e segue em fase de crescimento operacional, o chamado ramp-up. Nesse estágio, a extração e o processamento ainda não atingiram a capacidade plena, o que reduz o faturamento e, consequentemente, os repasses financeiros ao município.
Segundo dados da Agência Nacional de Mineração (ANM), Minaçu arrecadou em 2024 cerca de R$ 6,85 milhões em CFEM, valor que corresponde a aproximadamente 3,3% da arrecadação total do município. Na prática, isso representa uma entrada ainda modesta de recursos, com repasses mensais variando entre R$ 294 mil e R$ 819 mil ao longo do ano.
O que vai mudar?
O cenário, porém, tende a mudar de forma consistente a partir da consolidação da operação e da entrada da USA Rare Earth como controladora. A empresa projeta alcançar uma produção anual de 6.400 toneladas de óxidos de terras raras até 2027, com possibilidade de dobrar esse volume até 2030. Esse aumento de escala impacta diretamente o faturamento da atividade, ampliando a base de cálculo da CFEM e elevando a arrecadação municipal.
Um dos elementos mais relevantes do novo arranjo é o contrato de fornecimento de longo prazo firmado no contexto da operação. Com duração de 15 anos, o acordo estabelece preços mínimos para elementos estratégicos como disprósio e térbio, reduzindo a volatilidade típica do mercado de terras raras, historicamente influenciado pela concentração da oferta na China. Essa previsibilidade de receita tende a garantir fluxos mais estáveis de arrecadação para Minaçu, reduzindo riscos associados a oscilações bruscas de mercado.
Mesmo em operações aduaneiras, os repasses da CFEM são feitos em moeda brasileira. Porém, se tratando de comércio exterior de terras raras, a lógica econômica é fortemente influenciada pelo cenário global, onde os preços são definidos em dólar.
Minaçu receberá em dólar?
Embora os repasses da CFEM sejam feitos em reais, a lógica econômica da operação é fortemente influenciada pelo mercado internacional, onde o dólar é a moeda referencial. Isso significa que eventuais valorizações da moeda americana tendem a elevar o faturamento da empresa e, de forma indireta, trazer alguma vantagem financeira ao município. Ou seja, Minaçu não receberá em dólar diretamente, mas pode se beneficiar do câmbio de forma indireta ao longo do tempo.
Além dos efeitos diretos sobre a CFEM, a nova configuração da operação pode gerar impactos econômicos mais amplos. A expectativa de expansão da mina e de integração com a cadeia produtiva dos Estados Unidos indica a possibilidade de novos investimentos na região, com reflexos sobre o emprego, a renda e a arrecadação de tributos locais. O fortalecimento da atividade econômica tende a dinamizar setores como comércio e serviços, ampliando o efeito multiplicador da mineração sobre a economia de Minaçu.
O que muda, na visão do Estado?
Ao Jornal Opção, o secretário de Indústria e Comércio de Goiás, Joel Sant’Anna Braga Filho, foi enfático na definição: “A SVPM continua como empresa brasileira. Tínhamos dois investidores dos Estados Unidos e um do Reino Unido. O que hoje houve foi a compra no nível deles, ou seja, não muda nada para a SVPM”, disse.
A leitura do governo estadual coincide com a interpretação geopolítica que cerca o negócio: a Serra Verde já era financiada por capital ocidental, mas sua produção estava amarrada à capacidade chinesa de refino. Agora, a expectativa do mercado e do governo goiano é que a empresa americana tente absorver esse fluxo em uma cadeia integrada sob influência dos EUA.
Ainda assim, o cenário não está isento de incertezas. A conclusão da transação depende de aprovações regulatórias, e a evolução do mercado global de minerais críticos permanece sujeita a fatores geopolíticos e econômicos. Além disso, parte relevante da cadeia de valor especialmente o refino e a industrialização continuará fora do Brasil, o que limita o potencial de captura integral dos ganhos pela economia local.
Mudanças pelo lado de dentro: Grossi permanece
Antes da conclusão da operação, a nova estrutura de governança já começa a ser desenhada internamente, indicando como ficará o comando da empresa após a integração entre a Serra Verde e a USA Rare Earth. As mudanças mostram não apenas a continuidade da gestão brasileira, mas também o fortalecimento da presença desses executivos na liderança global do negócio.
A liderança brasileira não sai, ela sobe de nível e passa a ter influência direta na empresa global, enquanto a operação em Minaçu continua sob o mesmo comando, Veja:
EUA
- Thras Moraitis (atual CEO da Serra Verde)
→ Passa a ser Presidente da empresa futura
→ Também assume cadeira no Conselho de Administração - Sir Mick Davis (Presidente do Conselho da Serra Verde)
→ Passa a integrar o Conselho de Administração da nova empresa
BRASIL/MINAÇU
- Ricardo Grossi (Presidente da Serra Verde Pesquisa e Mineração)
→ Permanece liderando as operações no Brasil
Em nota, Ricardo Grossi, presidente da Serra Verde destacou o impacto estratégico da operação para o país e o reconhecimento internacional da qualidade do projeto desenvolvido em Minaçu:
“Esses marcos são um ponto positivo significativo para o Brasil e demonstram a capacidade do país de desempenhar um papel de liderança no desenvolvimento das cadeias globais de suprimentos de terras raras. As garantias de fornecimento, assim como a combinação com a USAR, validam a qualidade da Serra Verde: nossa operação única, nossos colaboradores e seu compromisso com práticas responsáveis.”

