Agência britânica Reuters diz que Minaçu ainda “vislumbra um futuro seguro com o amianto”

Com o título “Beset by legal battles, Brazil asbestos town eyes a safer future” a agência britânica Reuters diz em reportagem publicada nesta quinta-feira, 27, que, apesar de enfrentar uma guerra na justiça, a cidade de Minaçu ainda vislumbra um futuro seguro com o amianto. A Reuters é a maior agência de notícias internacionais do mundo, tem sede em Londres e conduz a maior cobertura sobre economia no planeta.

“Ao lado de um recente boom de contratações, graças ao desenvolvimento de uma nova mina de terras raras na região, alguns moradores acreditam que Minacu deveria se reinventar e deixar de lado o amianto. Para outros, sem amianto, a cidade acabou” diz o texto em tradução livre para o português.

A revista alerta porem que, a qualquer momento, uma decisão judicial pode suspender a atividade de mineração, como fez por 16 dias no ano passado, ou encerrá-la definitivamente.

Confira o artigo em inglês aqui: www.reuters.com

 

E a tradução livre, em português, abaixo:

 

MINAÇU, Brazil – Na cidade brasileira de Minacu costumava nevar, os moradores gostam de contar aos visitantes. Mas o pó branco que cobriu as ruas e telhados de 1967 até o final dos anos 1980 estava longe de ser um floco de neve inofensivo. Era um cancerígeno perigoso: o amianto.
A “neve” é uma lembrança de quando a mina de crisotila (conhecida como amianto branco) da cidade carecia de procedimentos de segurança para conter o pó e impedir que ele se espalhasse pela área urbana próxima.

Para muitos moradores, aqueles eram os bons velhos tempos, quando a cidade de 28.500 habitantes no interior do estado de Goiás prosperava e os empregos eram abundantes na Sama SA, empresa que extrai amianto da Cana Brava, uma mina que cobre uma área quase tão grande quanto Minacu .
O amianto é uma fibra à prova de fogo usada como material de construção e em produtos industriais, mas também é conhecido como uma substância que pode causar câncer.

Cerca de 107.000 pessoas morrem a cada ano de doenças relacionadas ao amianto, disse a Organização Mundial da Saúde em um artigo de 2014, acrescentando que os níveis locais de mortes relacionadas ao amianto só diminuem décadas após o término do uso.
Devido a esses riscos à saúde, o amianto é proibido em cerca de 60 países.

O Brasil impôs a proibição em 2017, mas uma lei estadual em disputa na Justiça mantém a mina de Cana Brava em operação.
Minacu está agora em uma encruzilhada. É o lar da última mina de amianto do Brasil – mas o mineral não sustenta mais a cidade, que passou por tempos econômicos difíceis.

A qualquer momento, uma decisão judicial pode suspender a atividade de mineração, como fez por 16 dias no ano passado, ou encerrá-la definitivamente.

Ao lado de um recente boom de contratações, graças ao desenvolvimento de uma nova mina de terras raras na região, alguns moradores acreditam que Minacu deveria se reinventar e deixar de lado o amianto.

Para outros, sem amianto, a cidade acabou.

“Se Sama parar, a cidade para”, disse Joaquim de Souza, 54, que mora perto do maciço de rejeitos de amianto de Minacu.
Entre 1985 e 1991, Souza trabalhou para as empreiteiras da Sama, ensacando o pó branco. Agora, seu filho trabalha para a Mineração Serra Verde, mineradora de terras raras, que planeja fornecer elementos para turbinas eólicas, telefones celulares e carros elétricos.
Souza acredita que Serra Verde é o futuro, mas não pensaria duas vezes antes de deixar o neto trabalhar na Sama quando crescer.
“Não há perigo”, disse ele.

‘Mãe de Minaçu’

Depois que o Supremo Tribunal Federal encerrou o uso de amianto no país em 2017, moradores protestaram em camisetas com o slogan “Defendemos o amianto crisotila”, segundo Arthur Pires Amaral, professor de antropologia da Universidade Federal de Catalão.
Desde 2019, quando os legisladores goianos aprovaram um projeto de lei permitindo a continuidade da mineração de amianto para fins de exportação, toda a produção foi enviada para o exterior.
Essa lei agora está sendo contestada na Justiça pela Associação Nacional dos Procuradores do Trabalho do Brasil.

O amianto está entrelaçado com a identidade de Minacu. Negócios, ruas, um rio e até uma clínica do governo têm o nome de amianto crisotila – “amianto crisotila” em português.

Pedras cheias de fibras de amianto são usadas para marcar locais importantes, como a entrada da cidade. Seu bairro de luxo – chamado Sama Village – tem telhados de amianto em todas as casas.
Muitos se referem a Sama – que é de propriedade da empresa de materiais de construção Eternit – como a “mãe de Minacu”.
“É uma mãe que cuida, que alimenta”, disse Amaral, que deve publicar um livro sobre a cidade em fevereiro. “Mas também é uma mãe perversa, que deixa as pessoas doentes e depois vira as costas para elas.”

A Sama auxilia todos os trabalhadores que tiveram problemas de saúde devido à exposição comprovada ao amianto, disse a Eternit em comunicado emitido em resposta a perguntas.
“Não há estatísticas confiáveis sobre o número de trabalhadores expostos às fibras de crisotila que desenvolveram doenças pulmonares no Brasil, pois um grande número de diagnósticos se mostrou errado após a realização de um exame mais preciso”, acrescentou a Eternit.

Pedágio humano

Quando a indústria do amianto era forte em Minacu, Sama financiou eventos culturais, religiosos e esportivos, e foi um grande doador político em 2012, mostram dados eleitorais.
“(Sama) escolheu os prefeitos, os vereadores – e dominou a igreja. Você tinha padres e pastores defendendo o amianto durante os cultos”, disse Amaral.

Em Minacu, pode ser um tabu depreciar Sama publicamente – mas milhares assinaram acordos com a empresa discretamente.
Já em 2002, a Sama havia feito mais de 3.000 acordos extrajudiciais em que concordou em fazer pagamentos ou fornecer seguro de saúde a ex-funcionários, alegaram promotores do trabalho em um processo em andamento aberto em 2020.
A empresa também é criticada em processos judiciais movidos por indivíduos e organizações sem fins lucrativos, bem como por promotores federais e trabalhistas.

Olivia, que pediu que seu nome verdadeiro não fosse divulgado por temer repercussões na comunidade local, processou por danos relacionados à morte de seu pai, funcionário da Sama de 1982 a 1994, que morreu de câncer de pulmão 14 anos depois.
“Mesmo com um relatório médico dizendo que (o câncer) foi causado pelo amianto, a justiça não foi feita”, disse ela. “Conseguimos provar isso, mas o processo está em andamento.”

Em novembro, a Justiça do Trabalho de Goiás ordenou à Eternit que pague os exames médicos regulares de todos os ex-funcionários da mina pelos próximos 30 anos e os honorários médicos de qualquer trabalhador que desenvolva problemas de saúde “provavelmente associados à exposição ao amianto”.

A ABREA, associação brasileira de pessoas expostas ao amianto, também está processando a Sama. Sua fundadora, Fernanda Giannasi, faz campanha contra o amianto desde 1995 e viu muitos de seus membros morrerem de doenças relacionadas ao amianto, disse ela.
“Quando eles morrem, para mim é uma perda como se fosse alguém da minha família”, disse Giannasi, inspetor do trabalho aposentado.
Mas em Minacu, muitos ainda negam que o amianto seja prejudicial.
“A maioria dos trabalhadores de lá fumava. Aí começaram a passar mal por causa do cigarro e acusaram Sama, (dizendo) que era amianto”, disse o vereador de Minacu Wedney Divino de Miranda.

Nos primeiros nove meses de 2021, as exportações de amianto da Eternit cresceram 165% em relação ao mesmo período de 2020, mostram suas demonstrações financeiras. Dos R$ 833 milhões da empresa (US$ 151,08 milhões) em receita líquida, R$ 197 milhões foram obtidos com o amianto.
A Sama é a terceira maior produtora de amianto crisotila do mundo e já o transportou para mais de 150 países, informa o site da empresa.
A declaração da Eternit disse que esses países incluem Estados Unidos, China, Rússia, Alemanha, Índia, Indonésia e Malásia.
O amianto brasileiro põe em perigo os trabalhadores no exterior que lidam com o mineral, disse Linda Reinstein, fundadora da Amianto Disease Awareness Organization, uma organização sem fins lucrativos com sede nos EUA.
“A maioria das pessoas… não entende que a exposição e a morte continuam hoje”, disse ela.

Sem mercado interno, a Sama não gera mais receita tributária ou empregos suficientes para atender às necessidades de Minacu, disse o prefeito Carlos Leréia.

Como congressista, ele era um acérrimo defensor do amianto. Como prefeito, ele disse que Sama ainda tem um papel a desempenhar na economia local, mas Minacu também deve desenvolver outras indústrias, como o turismo.

Leréia tem medo de depender demais da Serra Verde, empresa de minerais raros, pois acredita que deixará de gerar empregos quando a mina estiver em operação.
Em sua fase de construção, a mina Serra Verde criou cerca de 1.600 empregos, disse seu vice-presidente executivo Luciano Borges durante uma apresentação online em setembro passado.

Quando estiver operacional, a mina empregará cerca de 700 pessoas de cidades próximas, incluindo Minacu, acrescentou.
Serra Verde recusou um pedido de entrevista.
A Sama, por sua vez, emprega cerca de 375 pessoas diretamente e mais 60 por meio de terceiros, segundo a Eternit.

Pagando pela transição

A situação de Minacu não é única. Outrora um grande produtor, a cidade canadense de Amianto mudou seu nome em 2020 para se afastar do estigma e agora está tentando diversificar sua economia.
O custo da transição para modelos econômicos mais seguros e sustentáveis deve recair sobre aqueles que lucraram com o amianto, disse Laurie Kazan-Allen, da International Ban Amianto Secretariat, uma organização sem fins lucrativos sediada no Reino Unido.
No caso de Minacu, isso significa que a Eternit, as autoridades do estado de Goiás e o governo brasileiro devem ajudar a cidade a traçar um futuro alternativo, disse ela.

Questionada por quanto tempo planeja continuar explorando o amianto, a Eternit disse que isso “dependeria de processos judiciais em andamento”. Enquanto isso, está começando a se reposicionar como produtora de telhas de energia solar, dizendo que se considera “uma empresa sustentável”.
Mas as telhas solares não são feitas em Minacu, o que significa que não podem substituir diretamente o emprego de amianto lá.
Kazan-Allen disse que a Eternit deveria reservar dinheiro todos os anos para reabilitar Minacu quando chegar a hora.
“Tem que ser um esforço coletivo, e eles têm que explorar as opções. Porque mais cedo ou mais tarde, a mina vai fechar”, disse ela.
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