Fissuras esquecidas

Somos uma geração ferida por dentro — perplexa porque viu ruir certezas antigas, insegura porque não encontrou outras no lugar, aflita porque vive de urgências ruidosas e sentido ralo. Mas, se há uma fresta luminosa nisso, é que não aceitamos mais o óbvio: algo em nós se revolta contra esta anestesia coletiva e recusa viver no automático. Questionamos porque sofrer nos ensinou que o que está aí não basta.

Pagamos o preço dessa rachadura: caminhamos sem coluna moral sólida, respirando uma descrença que corrói tanto adultos quanto jovens. Crescemos olhando instituições em frangalhos, promessas desmentidas, referências que desabam — e isso escoa em tudo, até no futebol, onde se viu em campo a mesma vacilação que carregamos no peito: talento sem fibra, expectativa sem convicção, esforço sem alma.

O remédio não virá de uma fantasia alienada nem de um saudosismo paralisante. Precisamos reencontrar o chão — realidade crua, sem maquiagem — mas sem jogar fora o que nos sustentou antes: a imaginação que abre caminho quando a lógica falha, e as tradições que lembram quem fomos para que não nos dissolvamos no que der para ser. Até no trato com as crianças isso pesa: se não lhes ensinamos raiz e verdade, elas herdam apenas eco e vento.