Por que Minaçu entrou no radar de uma guerra econômica e política que envolve EUA, China e Brasil e tem feito disparar buscas por informações sobre a cidade em diversos países do mundo

Minaçu está no radar de uma disputa econômica global e histórica entre as duas maiores potências mundiais, Estados Unidos e China.

Ontem, 26, o Jornal Nacional mostrou imagens aéreas da cidade, ao citar que o município é, hoje, um dos pontos focais da economia global, no campo mineral, por abrigar o primeiro polo fora da Ásia a produzir terras raras em escala comercial – em resumo – um grupo de minerais vitais para a indústria de carros elétricos, turbinas eólicas, smartphones e até sistemas de defesa militar.

A ascensão de Minaçu ocorre em um momento em que a disputa geopolítica entre Washington e Pequim chega ao seu patamar mais alto e o interesse de ambas se coadunam no mais potente grupo de minerais, que são — e serão mais ainda no futuro — substanciais para a produção de tecnologia e de transição energética.

Não é por acaso que o interesse norte-americano na cidade aumentou vertiginosamente. A mineradora Serra Verde, controlada por um fundo de investimentos dos EUA, iniciou em 2024 a produção em Minaçu, apostando em um tipo raro de depósito de argila iônica, muito mais barato e ambientalmente menos agressivo do que as minas tradicionais de rochas duras. Para Pini Althaus, diretor da Cove Capital e ex-consultor do Departamento de Comércio dos EUA, “Projetos como o de Minaçu são os primeiros passos de uma corrida que vai redesenhar o equilíbrio de poder; cada tonelada produzida no Brasil é um golpe direto na influência de Pequim”, resumiu.

Isso porque, hoje, a China domina cerca de 90% do refino global de terras raras e, segundo especialistas aduaneiros, usou essa vantagem como arma estratégica, em abril, quando restringiu exportações para retaliar tarifas impostas pelos EUA. Para especialistas, o gesto foi um alerta claro de que a hegemonia chinesa nesse setor é mais poderosa do que muitos supunham. O analista geopolítico Constantine Karayannopoulos, uma das maiores autoridades globais em minerais estratégicos, afirmou recentemente que “os depósitos brasileiros são, de longe, os mais promissores do mundo fora da China, e Minaçu representa a única operação com potencial imediato para desafiar o monopólio chinês”.

Repercussão internacional

Cana Brava mine, owned and operated by SAMA. Foto: Reuters

A importância estratégica da cidade também ganhou projeção em jornais internacionais. O The Guardian, recentemente, repercutiu o protagonismo do município e foi o mais enfático dos editoriais estrangeiros. O Brasil pode não querer ser aliado direto dos EUA, mas Minaçu já está no centro de uma disputa que conecta carros elétricos, satélites militares e o futuro da autonomia tecnológica ocidental, ponderou. Veículos que lideram a audiência em seus países, como o The New York Times e o The Wall Street Journal também citaram o nome da cidade e os elementos que a trazem a este contexto.

Mining-Technology.com, Inside Climate News repercutiram Minaçu como exemplo da tentativa global de diversificar a cadeia de suprimentos de minerais críticos.

Confira as principais citações de especialistas sobre Minaçu, ou editoriais em grandes jornais internacionais e mídias especializadas de Países da América do Sul e da Europa.

O nome ‘Minaçu’ apareceu em relatórios e análises fora do circuito anglo-saxão. Na Alemanha, sites como CityPopulation e WetterOnline registraram menções em relatórios técnicos e climáticos; em países latino-americanos, buscas em espanhol no Google cresceram cerca de 40% desde janeiro de 2025, com destaque para México e Argentina, mercados interessados em abastecimento alternativo de terras raras. Em buscas internacionais, Minaçu se tornou um termo monitorado em think tanks europeus e em relatórios do CSIS (Center for Strategic and International Studies), em Washington, que descreveu a cidade como ‘um novo tabuleiro de xadrez na disputa mineral global’.

O que há de sensível no aspecto político

O pano de fundo político adiciona ainda mais um movimento que parece estabelecer uma correlaçao. O presidente Donald Trump, em seu retorno ao poder, usou “as terras raras do Brasil”, como exemplo em discursos que criticam a dependência dos EUA da China e justificam tarifas de até 55% sobre produtos chineses. Fontes ligadas ao Departamento de Estado norte-americano apontam que Trump vê a aproximação econômica com o Brasil como contrapeso às decisões internas do país, inclusive às polêmicas ações judiciais do ministro Alexandre de Moraes, que tensionaram as relações bilaterais durante o governo Bolsonaro. Ao apoiar a Serra Verde e pressionar por mais investimentos em projetos como o de Minaçu, Trump sinaliza que está disposto a usar acordos minerais estratégicos como peça de barganha diplomática com Brasília.

Para a China, Minaçu representa uma aluta diária pela manutenção da liderança mineral e um possível fortalecimento da aliança informal entre Brasil e EUA. Analistas chineses citados pelo South China Morning Post já classificaram a operação em Minaçu como ‘uma provocação indireta patrocinada por Washington em território sul-americano’. No entanto, ironicamente, parte da produção de Minaçu poderá ser exportada para a própria China, evidenciando as contradições dessa nova guerra fria dos minerais.

O fato é que Brasil ainda está distante de se firmar como alternativa no mercado global de terras raras. Para assumir um papel de destaque na cadeia produtiva, o país precisa de uma estratégia industrial robusta, alertam especialistas. Não basta extrair: é necessário investir em refinarias para separação dos minerais, qualificação de mão de obra, busca de clientes fora da China e incentivo à demanda interna por superímãs e veículos elétricos.

Em um mundo cada vez mais polarizado, Minaçu, uma cidade que até pouco tempo lutava para sobreviver após o colapso da indústria do amianto, pode determinar rumos que vão além de suas fronteiras. A cada tonelada de terras raras extraída, Minaçu não apenas reescreve sua história local, mas também move peças no maior tabuleiro geopolítico do século XXI.